Devil in disguise

Agosto 23, 2008

Peixe Grande

Arquivado em: livros — tatiana @ 1:46 pm
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“E aquelas imagens – o hoje e o ontem de meu pai – convergiram, e, naquele momento, ele se transformou nuam criatura estranha, selvagem, ao mesmo tempo jovem e velha, moribunda e recém-nascida. Meu pai se tornou um mito”

Meus dois dias de folga no trabalho me renderam bem mais que 48hs de descanso. A sensação de estar andando pela rua às duas horas da tarde sem rumo só se compara com uma panela de brigadeiro em um dia de chuva… E foi mais ou menos por aí que eu entrei num sebo perto de casa…

Sebo é maneira de dizer. O lugar é uma livraria inteira (www.betadeaquarius.com.br), só feita por livros que as pessoas (loucas!) não querem mais. A graça da história é achar preciosidades em meios às tosquices… Mais ou menos como entrar na Zara, onde você tem que caçar aquela camiseta M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-A em meio aos sapatos vermelhos brilhantes que te lambram a Judy Garland, em O Mágico de Oz.

Mas eu divago… O fato é que em uma destas “caçadas” eu encontrei um livrinho fininho, bem-conservado até (para os padrões do lugar), por 10 reais! Peixe Grande, de Daniel Wallace. Foi adaptado para o cinema por Tim Burton e, na época, não me seduziu muito. Só me interessei por ele quando o vi na Travessa com o subtítulo “Uma fábula do amor entre pai e filho”. Confesso que todas as histórias de amor entre pai e filho me emocionam, mas os 30 reais que me cobravam para ler o livro me fizeram desistir.

Hoje, lendo Peixe Grande, eu percebi como é incrível o fato de um homem, nos Estados Unidos, com idade muito maior do que a minha pode traduzir com tanta fidelidade o que eu, mulher, no Brasil, com 22 anos, sinto em relação ao meu próprio pai.

Edward Bloom está morrendo, e seu filho William está incomodado por não ter nada além de histórias para se lembrar do seu pai. Edward queria ver o mundo, conhecer todos os lugares, todas as pessoas, mas sua curiosidade teve um preço: o longo tempo que passou longe de casa. O medo de se abrir com a família e, talvez a culpa de estar longe do filho, fez com que Edward quisesse ser lembrado por apenas uma de suas melhores características: saber fazer os outros rirem. As histórias fantásticas, as piadas, as brincadeiras foram entendidas por William como uma parede entre os dois e agora, com o pai em seu leito de morte, ele deve tentar quebrar essa parede. Ou entender, de uma vez por todas, o que seu pai quis dizer com tudo isso.

Edward me lembra meu próprio pai. Pelas realizações e pelo talento em contar uma história. A verdade é que são quase sempre as mesmas. As mesmas de terror, as mesmas de amor, as mesmas aventuras, e as mesmas piadas. Mas são estas histórias recorrentes que fazem das pessoas o que elas são de verdade. É através das coisas que você guarda que constrói a sua imagem e personalidade.

Mesmo que as histórias do meu pai tenham mais de Luis Fernando Veríssimo do que de Gabriel García Márquez, a criatividade e a fantasia estão sempre presentes. E é com isso tudo que eu monto a imagem que eu faço dele.

E no final das contas, todo pai é meio deus. Com uma capacidade incrível de criar mundos, lugares e pessoas para seus filhos. Todo pai é meio mito. Bom, eu sei que o meu é.

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